FIM DA ERA FIDELRaúl é eleito presidente e já acena com mudanças
Publicado em 25.02.2008 pelo Jornal do Commercio
Escolhido pelo Parlamento para suceder o irmão Fidel, Raúl Castro disse que pretende “reduzir a estrutura do Estado” e “eliminar proibições simples” na ilhaHAVANA – Numa sessão histórica, mas sem grandes surpresas, o Parlamento de Cuba confirmou ontem Raúl Castro, 76 anos, como novo presidente do país e comandante-em-chefe das Forças Armadas, substituindo seu irmão Fidel, que renunciou na terça-feira passada após ficar por 49 anos no poder. Raúl – eleito em chapa única – ocupava provisoriamente a Presidência desde julho de 2006, quando Fidel se afastou por razões de saúde. Ele assumiu o cargo ontem – na primeira alternância de poder desde a vitória da Revolução Cubana, em 1959 – prometendo reestruturação do aparato estatal para uma gestão mais ágil e prometeu “eliminar proibições simples”. Para quem esperava anúncios mais ousados, porém, os primeiros movimentos do novo governo foram conservadores, sobretudo com a eleição de um linha-dura egresso da Sierra Maestra para primeiro vice-presidente, Ramón Machado Ventura, 77 anos.
Em seu pronunciamento, Raúl pediu a permissão da Assembléia (aprovada por unanimidade) para consultar Fidel sobre as decisões “de transcendência para o futuro da nação, em especial as vinculadas à defesa, à política externa e ao desenvolvimento socioeconômico”. Fidel mantém também o cargo de primeiro-secretário do Partido Comunista, porém, não foi eleito para nenhum dos 31 cargos do Conselho de Estado. “Assumo a responsabilidade que me foi concedida com a convicção de que o comandante-em-chefe da Revolução Cubana é um só: Fidel. Como todos sabemos, ele é insubstituível”, discursou Raúl.
Raúl afirmou que pretende eliminar, a partir da próxima semana, “proibições mais simples, muitas que tiveram por objetivo evitar o surgimento de novas desigualdades em um momento de escassez generalizada”, como parte das primeiras medidas de reforma econômica. Sem entrar em detalhes, o novo presidente destacou que “a suspensão de outras regulamentações levarão mais tempo”, pois exigem mudanças na lei. Ele afirmou também que reduzirá as estruturas do governo para deixar o Estado mais ágil, eliminando alguns cargos e setores, “para tornar mais eficiente a gestão”.
Ele disse que “o partido deve ser mais democrático”. O presidente estuda ainda uma reavaliação gradual do peso cubano. A falta de poder aquisitivo é uma das maiores reclamações da população.
Raúl Castro presidirá o Conselho de Estado, autoridade máxima da ilha, pelos próximos cinco anos. Desde 1959, Fidel já havia indicado Raúl (seu primeiro vice-presidente) como sucessor. A renúncia de Fidel a uma nova candidatura, na semana passada, abriu caminho para o irmão.
Os vice-presidentes do Conselho de Estado também foram apontados ontem: Carlos Lage (que mantém o cargo), Juan Almeida, Esteban Lazo, Abelardo Colomé Ibarra e Julio Casas Regueiro, todos dirigentes conhecidos do regime. Ricardo Alarcón renovou também seu mandato como presidente da Assembléia Nacional. Entre os 31 membros do conselho, também estão o chanceler Felipe Pérez Roque e o ministro da Saúde, José Ramón Balaguer.
A Assembléia Nacional foi eleita mês passado em eleições controladas pelo Partido Comunista, única organização política legal na ilha. Havia 614 candidatos já predeterminados a ocupar as 614 cadeiras do parlamento. Participaram da sessão de ontem 597 deputados – Fidel não compareceu, mas enviou seu voto.
REPERCUSSÃO
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aplaudiu ontem a eleição de Raúl Castro e disse que nada mudará na relação entre os dois países com o afastamento de Fidel. Nos últimos anos, é o petróleo subsidiado de Chávez que vem garantindo o abastecimento energético da ilha. Raúl ligou para Chávez logo após sua confirmação no cargo.
Para o chefe da diplomacia americana para a América Latina, Tom Shannon, a troca do presidente cubano, com a designação de Raúl como sucessor de Fidel, “deixa entrever uma possibilidade e uma potencialidade de mudança em Cuba”.
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